Nao sou nada.
Nunca serei nada.
Nao posso querer ser nada
A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lucido, como se estivesse para morrer,
Falhei em tudo.
Como nao fiz proposito nenhum, talvez tudo fosse nada.
Que sei eu do que serei, eu que nao sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E ha tantos que pensam ser a mesma coisa que nao pode haver tantos!
Genio? Neste momento
Cem mil cerebros se concebem em sonho genios como eu,
E a historia nao marcara, quem sabe? nem um,
O mundo e para quem nasce para o conquistar
E nao para quem sonha que pode conquista-lo, ainda que tenha razao.
Tenho sonhado mais que o que Napoleao fez.
Tenho apertado ao peito hipotetico mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que nao more nela;
Serei sempre o que nao nasceu para isso;
Serei sempre so o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pe de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poco tapado.
Crer em mim? Nao nem em nada.
Vivi, estudei, amei e ate cri,
E hoje nao ha mendigo que eu nao inveje so por nao ser eu.
Fiz de mim o que nao soube
E o que podia fazer de mim nao o fiz.
O domino que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem nao era e nao desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a mascara,
Estava pegada a cara.